terça-feira, 8 de agosto de 2017

Sobre ideologia(s) de gênero(s)


Está totalmente em voga, principalmente na boca e na "cabeça" de pessoas reacionárias, a expressão ideologia de gênero para tentar designar pejorativamente os estudos de gêneros que buscam analisar criticamente como são estabelecidas sócio-histórico-culturalmente as identidades sexuais e também as sexualidades humanas, assim como as relações de poder traçadas a partir dos discursos sobre gênero, sexo e sexualidade. A contraposição aos estudos de gêneros é proveniente de concepções essencialistas de mundo que atribuem à Natureza a constituição das identidades sexuais, da sexualidade e das próprias relações entre os gêneros. Tais essencialismos sexistas partem ora de visões religiosas, presentes, por exemplo, em discursos da pastoral cristã, ora de perspectivas científicas que procuram "comprovar" a identidade de gênero e a sexualidade humana como biologicamente pré-determinada. Enquanto que esse primeiro essencialismo sexista é endossado pelo dogmatismo religioso, o segundo é endossado por um ingênuo (ou não) dogmatismo científico que pressupõe uma generalizante naturalização das diferenças sexuais como base para todas as pesquisas a serem desenvolvidas, desconsiderando profundamente os fatores sócio-histórico-culturais. 
O grande problema ético dos essencialismos sexistas (como a própria expressão já denuncia) é a manutenção consciente ou inconsciente, voluntária ou involuntária, de ideologias e de discursos que promovem e endossam a misoginia, o patriarcalismo, o machismo, a homofobia, a transfobia e a heteronormatividade, que estão e que foram difundidos profundamente em diversos contextos sócio-histórico-culturais. Dessa forma, todo e qualquer discurso que tenta ir contra os estudos (críticos) de gêneros, denominando-os como ideologia de gênero, dissimula (cegamente ou não) que é também uma ideologia de gênero. Em outras palavras, tanto os estudos de gêneros quanto os essencialismos sexistas são, evidentemente, ideologias de gêneros; entretanto, a abissal diferença decorre do fato de que, enquanto os estudos de gêneros buscam criticar e desconstruir concepções de mundo misóginas, patriarcalistas, machistas, homofóbicas, transfóbicas e heteronormativas, os essencialismos sexistas procuram consciente ou inconscientemente apenas perpetuá-las. Vale ressaltar, especialmente aos leigos nesse assunto, que os estudos de gêneros não buscam negar que existe uma diferença sexual biológica na nossa espécie ou destruir a heterossexualidade e a família heteroparental, mas apenas desnudar os construtos sócio-histórico-culturais e discursivos que as estabelecem, desconstruindo assim as sexistas ideologias essencialistas em torno do imperativo heterossexual.

(Frédéric Grieco)


A seguir, indico quatro excelentes estudos críticos sobre identidades de gêneros e sexualidades:
  • O segundo sexo, de Simone de Beauvoir.
  • História da sexualidade, de Michel Foucault.
  • Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, de Judith Butler.
  • O corpo educado: pedagogias da sexualidade, organizado por Guacira Lopes Louro.